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Burnout Materno: o que temos a ver com o esgotamento de mães sobrecarregadas?


O maio surge em um momento histórico de exaustão materna. É um movimento que nasce a partir das vozes de mães cansadas, em busca de forças e espaço para gritar: precisamos ser ouvidas, estamos exaustas, não aguentamos mais! Mas afinal, sobre o que estamos falando quando falamos de exaustão materna? Que tipo de cansaço é esse?





O cansaço habitual de uma vida com múltiplas tarefas é um signo do nosso tempo, onde a produtividade e a performance são cultuados. Mas não estamos falando de cansaço habitual, as mães estão adoecendo de um cansaço crônico que quando não cuidado deságua nas águas turvas da depressão.


Os filhos são uma enorme fonte de amor, afeto e realização, mas são igualmente fonte de privações e exaustão. Uma coisa não anula a outra, realização e esgotamento coexistem na maternidade. Podemos amar nossos filhos e ao mesmo nos sentirmos igualmente esgotadas. O que reivindicamos é a possibilidade de vivermos cada gota do nosso maternar, com menos dor e sofrimento.


Recentes estudos realizados por Mikolakczak & Roskan (2017) vêm destacando que a síndrome de burnout pode manifestar-se não apenas no ambiente de trabalho, mas também no contexto da parentalidade. Isso ocorre porque o estresse crônico e prolongado, que é a principal causa do burnout, não se restringe apenas às atividades profissionais remuneradas. As tarefas envolvidas no cuidado dos filhos podem ser fonte de um estresse elevado, contribuindo para o esgotamento mental dos pais. Surpreendentemente, esses pesquisadores descobriram que os índices de estresse na parentalidade são comparáveis aos encontrados em casos de burnout no trabalho. Além disso, eles apontam que o nível de cortisol encontrado em pais com burnout é equivalente ao nível presente em vítimas de violência doméstica e pacientes com dor crônica.


Cansaço crônico, esgotamento, invisibilidade, doem.



No campo do esgotamento mental das mulheres-mães brasileiras, o trabalho invisível do cuidado não remunerado acrescido da jornada de trabalho formal têm resultado em índices alarmantes de burnout materno. De acordo com o maior estudo realizado a nível global envolvendo mais de 40 países, incluindo o Brasil e países sul americanos, estima-se que a prevalência de burnout parental no mundo seja de aproximadamente 5%, podendo atingir os 10% em alguns países. Sendo as mães mais suscetíveis a desenvolverem quadros de burnout, uma vez que as tarefas do cuidado recaem majoritariamente sobre nós.


Embora os sintomas de burnout materno se assemelhem aos de depressão pós-parto, é fundamental destacar que o burnout parental é uma condição distinta. O burnout parental geralmente ocorre entre mães com filhos acima de 12 meses e está relacionado com altos níveis de stress por tempo prolongado. Uma mãe em burnout perde o prazer nas tarefas maternas, passa a operar os cuidados de forma mecânica, possui fortes dificuldades em articular o pensamento, pensar cansa. No entanto, encontra prazer e se diverte em outras atividades que não envolvam os cuidados com os filhos. Já a mãe num quadro de depressão apresenta uma perda de prazer nas outras esferas da vida, além de sentimentos de tristeza generalizada, sensação de inutilidade, culpa excessiva, dificuldade de concentração, agitação, fadiga, alterações no sono e no apetite, bem como pensamentos recorrentes de morte.


A recomendação padrão diante de casos de burnout é o afastamento imediato das tarefas laborais. Da mesma forma, as mães que recebem cuidado, apoio e colaboração em suas responsabilidades tendem a melhorar seus sintomas de esgotamento.


É importante ressaltar que as mães expostas a situações de estresse crônico, sobrecarga de tarefas, falta de apoio, vulnerabilidade social e invisibilidade estão em um grupo de risco não apenas para desenvolverem a Síndrome de Burnout, mas também para enfrentarem uma variedade de transtornos psicopatológicos, como transtornos de ansiedade, depressão, ideações suicidas.


No entanto, é comprovado que transtornos mentais maternos são passíveis de manejo e tratamento por meio de políticas de saúde pública que visem a prevenção, intervenção e pós-intervenção.


Portanto, é necessário enfatizar em alto e bom tom: SÓ É POSSÍVEL MUDAR O MUNDO CUIDANDO DE QUEM CUIDA DE TODO O MUNDO!


Investir em programas e recursos que ofereçam suporte emocional, redes de apoio, acesso a serviços de saúde mental e ações que promovam a valorização e o reconhecimento das mães é fundamental para criar um ambiente saudável e sustentável para todas as famílias. Ao cuidar das mães, estaremos cuidando de toda a sociedade e construindo um mundo melhor para todos.


Nicole Cristino, psicóloga.

Idealizadora da Campanha Maio Furta-cor


Fontes:


BRIANDA, M. E.; ROSKAM, I.; MIKOLAJCZAK, M. Hair cortisol concentration as a biomarker of parental burnout. Psychoneuroendocrinology, v. 117, p. 104681, 2020.


MATIAS, M., AGUIAR, J., CÉSAR, F., BRAZ, A. C., BARHAM, E. J., LEME, V., ELIAS, L., GASPAR, M. F., MIKOLAJCZAK, M., ROSKAM, I., & FONTAINE, A. M. (2020). The Brazilian-Portuguese version of the Parental Burnout Assessment: Transcultural adaptation and initial validity evidence. New Directions for Child and Adolescent Development.


ROSKAM, I.; MIKOLAJCZAK, M. Le burn-out parental. Louvain-la-Neuve: De Boeck Supérieur, 2018.

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