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História da amamentação

Em toda a história da humanidade, a amamentação foi atravessada por marcadores de interesses econômicos e de controle social que determinaram períodos de maior ou menor intensidade quanto ao ato de a mulher amamentar o próprio filho. Nem sempre, ao longo da história, amamentar foi visto como algo natural e instintivo, como tem sido construído no imaginário popular nos últimos séculos como se, para amamentar, basta ser mulher, ter seios e parir uma criança que o aleitamento materno fluirá instintivamente assim como acontece com as outras mamíferas do reino animal.


Todo ato humano é construído socialmente.


Em séculos passados, a amamentação não era comum e não era entendida culturalmente como um ato instintivo e involuntário, muito menos era associada à ideia de amor materno. A própria ideia de infância que acompanhava o ato de amamentar se manifesta de forma completamente diferente do que construímos atualmente.


Partindo-se de uma história colonial e eurocentrada, Philippe Ariès, em seu livro A história social da criança, relata que a trajetória da criança consiste em uma construção da sociedade em que o conceito de infância vai se transformando ao longo dos tempos.


A análise do período histórico anterior ao século XVIII revela que a infância recebia pouco investimento social, muito provavelmente pela alta mortalidade infantil: o risco desse pequeno humano não crescer era maior do que ele se tornar um adulto.


Entre os séculos XVII e XVIII o cuidado da criança não era compreendido como expressão de amor e normalmente as crianças eram entregues a amas de leite ao nascer, que mantinham sua sobrevivência biológica, humanização e suporte emocional, eram desmamadas aos vinte meses de vida e permaneciam na casa das amas de leite até os 5 anos, quando retornavam a suas famílias biológicas. Ao longo desse período, as crianças não mantinham contato com suas famílias biológicas.


O século XVIII, segundo Foucault, foi fundamentalmente marcado pela lógica de se “fazer viver” pelo uso do controle contínuo e científico dos corpos - a biopolítica. As políticas de saúde passam a determinar as regras para “se fazer viver” e à família é atribuída a função de cuidado das crianças, correspondendo aos objetivos do estado relativos a boa saúde da população. A unidade familiar passa a não ser mais o lugar de sobreviver, mas de organizar, multiplicar, regular e cultivar a vida. Assim, a saúde das crianças torna-se um dos objetivos centrais da instituição familiar, fonte de investimento social pelo estado, nas palavras de Foucault, o “imperativo de uma nova relação entre pais e filhos, mais amplamente uma nova economia intrafamiliar” (1999, p. 65).


Somente na modernidade que a infância é entendida como uma fase do desenvolvimento humano muito diferente da adulta, um período frágil, que exige cuidadores adequados e que será constitutivo do adulto. É nesse momento histórico que a infância passa a ser protegida por muitas frentes e que o sentimento de amor entre os pais e entre pais e filhos passa a ser a base da instituição familiar e do sucesso da sociedade.


Nesse período histórico, a literatura médica e psicológica explora cada vez mais as emoções infantis, o desenvolvimento da criança, sempre a partir da relação com o olhar materno dentro da família. O produto dessa construção é ideia da importância do laço entre mãe e criança, inaugurando um novo lugar social para a mulher, a partir de onde se passa a defini-la: a maternidade.


Em 1762, o livro Émile, de Jean-Jacques Rousseau, cativou as mulheres e fomentou o despertar do amor materno, ao enaltecer a função materna, até então entendida culturalmente como algo normal ou até mesmo vulgar. As ideias de Rousseau adentraram o século XX e perduram até hoje, embebidas num discurso de igualdade, amor e felicidade.

É no final do século XIX que a relação mulher-bebê é investida de sacralidade e divindade, construindo-se a base do que chamamos de mito do amor materno. Em seu livro Um amor conquistado – o mito do amor materno, Elizabeth Badinter (1985) discorre sobre o imaginário do amor materno como algo natural e inato, a maternidade como destino da mulher, onde ela encontra realização e plenitude. As dissidências dessa maternidade profundamente romantizada passam a sofrer consequências sociais importantes com julgamentos e patologização.


É nesse contexto que a amamentação aparece como um recurso natural de alimentação do bebê e da criança, mas não só, é entendida como uma manifestação de amor.


Nas primeiras décadas do século XX a amamentação - pela própria mãe - ainda não era uma prática difundida, embora o imaginário popular sobre a maternidade estivesse em profunda modificação. Nesse período histórico o aleitamento em pó passa a ser uma opção com muito investimento da indústria alimentícia, a partir da propaganda de que o leite humano é fraco, ruim e insuficiente. O bebê gordo é associado ao bebê saudável e as mulheres acreditavam acirradamente que a fórmula era superior ao leite humano. A geração dos baby boomers, nascidos no pós-guerra, foi alimentada por fórmulas graças a grandes campanhas publicitárias de marketing.


Além disso, é na década de 60 que as primeiras conquistas feministas se dão, assim como o uso da pílula anticoncepcional e maior liberdade sexual, e amamentar o próprio filho é entendido como um limitador à saída da mulher do mundo doméstico e de cuidado e sua emancipação.


Na década de 70, a OMS e outros órgãos internacionais iniciam a chamada de atenção à saúde infantil e nutrição adequada, preocupados com as altas taxas de não amamentação, obesidade e outros problemas de saúde. Nesse período, a amamentação começou a ser foco de estudos científicos e seu fomento estruturado de forma mais coerente para garantir melhores resultados da adesão das mulheres à prática.


O movimento La Leche League, criado em 1956 por mães de classe média americanas, consolidou a nova cultura da maternidade e, por consequência, da amamentação, a partir de preceitos difundidos em mais de 60 países. O livro The Womanly Art of Breastfeeding contava com mais de 2 milhões de exemplares vendidos até a década de 90 e sua ideologia se resume à: a boa mãe põe as necessidade do filho naturalmente acima de tudo e as necessidades do bebê são estabelecidas pela natureza da criança, o elo emocional entre mãe e bebê é importante e necessário ao bom desenvolvimento, o leite humano é superior aos demais alimentos e a criança exerce protagonismo na amamentação e desmame.


Esse novo paradigma, construído ao longo dos séculos XVII ao XX, é consolidado com apoio de organizações internacionais e base da nossa atual cultura de maternidade e amamentação.


Entre as décadas de 60 e 90, a prática da amamentação sofreu grandes impactos pela introdução do leite em pó como substituto do leite humano. Ao passo que o leite em pó estava associado ao progresso e ao benefício social na redução da mortalidade infantil em países como os EUA, compreendeu-se que o mesmo leite em pó aumentava a mortalidade infantil e desnutrição em países pobres, inclusive no Brasil, onde os bebês deixavam de ser amamentados para receber fórmulas em mamadeiras.


Dois eventos foram decisivos nesse período: o livro The baby killer e a Reunião Conjunta OMS/Unicef sobre Alimentação Infantil e da Criança Pequena, organizada pela OMS, em Genebra.


Em 1974, Mike Muller publicou o relatório The baby killer, alertando sobre os efeitos do marketing da indústria alimentícia em países pobres. O relatório aponta ao aumento da mortalidade infantil e desnutrição a partir do uso de mamadeiras e fórmulas infantis entre pessoas de baixa renda em países socialmente vulneráveis, nos quais o marketing da indústria desconstruía as práticas de aleitamento humano e fomentava o uso de fórmulas e mamadeiras como um recurso moderno, seguro e saudável aos bebês e famílias. O relatório foi um escândalo que expôs toda a lógica de lucro de grandes empresas, culpabilizando a Nestlé como responsável pela morte e adoecimento dessas crianças. Esse escândalo funcionou como um alerta à sociedade civil e à responsabilidade social de empresas, quando passou-se a exigir a mínima regulamentação sobre a influência do marketing em práticas de saúde.


Uma das respostas a esse contexto foi a Reunião Conjunta OMS/Unicef sobre Alimentação Infantil e da Criança Pequena, onde se determinou o código de conduta ética quanto à propaganda de produtos que interferiam na amamentação.


Órgãos da sociedade civil organizada promoveram boicotes a Nestlé, empresa que mais investiu em propaganda e estratégia de marketing para conseguir a adesão dos profissionais a seus produtos. No Brasil, a empresa tem forte parceria com a Sociedade Brasileira de Pediatria, o que se estende até os dias atuais.


Foi apenas em 1981, que organismos internacionais criaram o Código Internacional do Marketing de Substitutos do Leite Materno, e, em 1988, o Brasil traduziu e aderiu às normas, o Ministério da Saúde implantou o Programa Nacional de Incentivo ao Aleitamento Materno (PNIAM), com várias estratégias de ação nas áreas de educação, saúde e controle estatal da propaganda de alimentos infantis e respeito às leis de proteção à nutriz, entre outras. Em 1988, foi aprovada pelo Conselho Nacional de Saúde e homologada por meio de portaria ministerial a Norma Brasileira de Comercialização de Alimentos para Lactentes, documento que restringiu a ação do marketing da indústria de leite em pó.


Desde então o Brasil fomenta campanhas de incentivo ao aleitamento humano, muito pautados na lógica de informar e responsabilizar a mulher pelo aleitamento. O efeito disso, muitas vezes, é o reforço da culpa pelo desmame, diretamente associado aos prejuízos para a criança. Esse modelo mostra-se incapaz de provocar mudanças saudáveis no paradigma de maternidade, além de não sustentar uma postura ativa e consciente na amamentação, pois é pautado no medo e nos riscos.


Diante do paradigma atual de maternidade, da diminuição da mortalidade infantil e da desnutrição e da crescente participação da mulher no mercado de trabalho, estratégias de promoção ao aleitamento precisam ser pensadas de forma a se construir um laço social de responsabilização conjunta e compartilhada. Esse é o mote da campanha de 2023: o apoio para as mulheres trabalhadoras. E nesse sentido, estamos apenas iniciando uma nova jornada que leva em conta o saber científico, os marcos históricos, os desejos das mulheres e a construção de uma nova cultura de maternidade que seja menos invasiva e mais saudável para as mães.


Discussões importantes a serem feitas são a fragmentação do cuidado (enquanto estratégia de economia na lógica capitalista), o entendimento dos impactos disso em diferentes classes sociais, o atravessamento pela raça e a amamentação em corpos LGBTQIA+.


É provável que nunca cheguemos a uma estratégia única, visto a diversidade de experiências maternas. Porém há dois pontos que precisam ser inegociáveis: o direito da mulher em escolher como nutrir seu bebê e o cuidado compartilhado da criança por toda a sociedade. Amamentar é trampo e o preço não pode ser pago por um personagem apenas. Que amamentar seja visto como um investimento coletivo, sem ônus.


¹ Leite humano é usado no lugar de leite materno como recurso linguístico de inclusão à comunidade LGBTQIA+.


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